Kepler – Capítulo 2

Capítulo 2

A Ideologia De Um Ser Ìnfimo

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– Me conte esta história direito. Como você fugiu de lá sem ser seguido? Bohen, se não me explicar tudo, eu não posso te deixar ficar – disse Tarlí, em um tom tenso e preocupado. Suas palavras saíam forçadas da garganta, quase que rasgando as cordas vocais para escaparem.

– Sério, se acalma. Eu vou te falar tudo. Não precisa ficar assim. Você é meu melhor amigo. Desde molequinho. Acha mesmo que viria aqui pra te prejudicar? – disse Bohen, trêmulo e cauteloso, ainda sob a mira da espingarda de Tarlí.

– Desembucha Bohen. A arma está carregada e preparada.

– Está bem. Está bem. Foi uma rebelião. Algo grande. Liderada pelo Jonen. Muitos se juntaram a ele. Deram um jeito de sair do bloco de celas durante a noite e ir a uma cidade próxima, onde havia um prédio do exército. Lá, eles pegaram todas as armas que podiam. Quando os astrais vieram de manhã, começou um tiroteio imenso. Eu fugi um pouco antes, pela tal saída.

– Conversa! Como assim o Jonen? E quem se juntaria assim a ele? Eu me lembro muito bem, tinham quatrocentos racionais lá, e ninguém gostava do Jonen, aquele velho monarquista! Bohen, fala a verdade!

– Eu estou falando a verdade! Sério, eu não mentiria sobre isso.  Os astrais mataram a esposa e o filho de Jonen. Uma velha e um inválido. Mataram também qualquer um que não servisse pra eles. Isso revoltou todo mundo. Todo mundo mesmo. Eu fui o único que não pegou nas armas. Jonen me mandou embora, me chamando de covarde. Ao longe, só ouvi o barulho, e vi o fogo e a fumaça. Tarlí, todos que nós conhecíamos, estão mortos.

Tarlí encarou o amigo por alguns segundos, pasmo. Era difícil aceitar que algo assim tivesse acontecido. Estranho em se pensar que cinco anos atrás, teria se deliciado do sofrimento do velho Jonen, que apoiava a monarquia; e no momento lhe doía saber que a família daquele senhor fora assassinada por gerar mais despesa que lucro.

– Tarlí, abaixa essa espingarda. Por favor.

Tomado pela tristeza, pela sensação de impotência, pela sabedoria de que nada podia fazer contra seu vil inimigo, o lenhador largou sua arma. Debulhou-se em lágrimas, derramadas por todos os entes queridos, afetos e desafetos perdidos. Agora, via em todos semelhantes que nunca havia notado em sua vida. Seus iguais, com quem brigou e fez mal, por motivos imbecis. A consciência ainda era a ferida mais dolorida que poderia existir.

Bohen abraçou o amigo, a fim de acalmá-lo. Sempre teve sangue frio, e era um ser inescrupuloso. Mas podia sentir em seus braços os espasmos de amargura que dominavam a alma daquele que confiava sua vida.

– Tarlí, fica calmo, sério. Vai ficar tudo bem.

– Não! Não vai! Perdemos tudo! Tudo! – gritou Tarlí. Um urro estridente, desmedido, de pleno desespero.

– Ei! Presta atenção! Enquanto Liana ainda brilhar no céu, fazendo o dia acontecer, esse planeta ainda é nosso.

Passou-se um tempo, e ambos sentaram à mesa. Ainda havia pão de forno ali, e Bohen parecia faminto. Tarlí enxugou seus olhos, e espalhou geléia de tória em um pedaço da massa. Estendeu para seu amigo, que aceitou e comeu ferozmente.

– Sabe o quê lembrei agora? – disse Bohen, com sua boca cheia, cuspindo migalhas na mesa.

– O quê? – retrucou Tarlí, um pouco mais calmo.

– Você é o último coletivista vivo. Não tem mais nenhum.

– Poxa. Você ainda está nisso? Já faz cinco anos que estamos nas mãos dos astrais, e ainda se lembra de política? Seu comercialista babaca. Pensando bem, nossas ideologias nunca foram muito diferentes, não é?

– Há, não mesmo, sério. – Bohen deu um leve sorriso – Ambos os lados queriam derrubar o rei, e colocar um líder escolhido pelo povo. Só tem diferença na economia mesmo. Nunca que vou dividir o que é meu com os outros. Ou melhor, iria, no passado.

– Entre partilhar meus bens, e ser privado de vários direitos por não ter como pagar, prefiro a primeira opção.

– Privado de quê? Todo mundo teria seus direitos básicos, que não existiam antes. Saúde, educação, alimentação, moradia.

– Numa qualidade péssima! – Tarlí retrucou, mas não parecia muito animado – Não queria o meu Forlí em uma escola ruim, ou minha esposa sem ter o que preparar para o almoço. Não queria ficar doente, sem condições de trabalhar, e não ser tratado por um médico de uma maneira descente. Queria ser igual àqueles que têm dinheiro. Poder dar pro meu filho as mesmas chances que o filhinho de bacana tem. Morar em um lugar limpo, protegido e arrumado.

– Todos seriam iguais! E receberiam os serviços na melhor qualidade que o governo pudesse pagar.

– E ele pagaria por algo muito bom para o povo, se fosse dono das empresas do país, ao invés de deixá-las nas mãos de uma dúzia de cabeças. Eles ganhavam milhões, enquanto nós tínhamos de viver com salário mínimo.

– Sabe qual é o maior defeito da sua ideologia?

– Você não acha que isso já não vale mais de nada? Não percebe que somos insignificantes? Não quero ficar discutindo política. Não na nossa situação.

– Sabe ou não sabe? – Bohen perguntou grosseiramente.

– Não, não sei.

– Vocês ignoram o maior desejo de um ser racional. O de progredir na vida. Trabalhar duro para ganhar cada vez mais, comprando cada vez mais. A vontade de ser melhor que os outros. Visivelmente melhor. E fazer esta diferença com o próprio esforço. O coletivismo impede qualquer um de crescer. Não precisamos ser todos exatamente iguais. Só ter as mesmas oportunidades.

– Eu não quero ficar falando sobre isso, mas já que você quer tanto entrar no mérito… Você disse o principal problema do coletivismo, e até que faz sentido. Mas, quer saber qual é o maior defeito da sua ideologia? O quê tem de mais errado no comercialismo?

– Não – Bohen encarou o amigo com um olhar animado – Me conta.

– Vocês nunca pensam no povo. Nunca. Vêem tudo e todos como dinheiro. Tudo é estatística para a sua economia. Isto é ridículo. Eu sou um ser vivo, e não um meio de lucro. Teu grupinho só corria atrás de modos de ficar ainda mais rico, enquanto os trabalhadores ficavam cada vez mais pobres. Ignoravam a sua nação, pra ganhar mais. Jogavam migalhas para que os funcionários ficassem calados. É isso o que eu acho dos teus tais direitos básicos. Migalhas.

– Nós ligávamos sim para o povo, sério! Preocupávamos-nos até com a taxa de desemprego.

– Claro! Se o trabalhador não tem emprego, ele não ganha dinheiro. Se ele não ganha dinheiro, não pode comprar. E se não compra, o teu sistema comercialista não tem lucro.

– Não, Tarlí. Espera aí. Também não é assim que funciona. Eu prezo pela liberdade de todos, como os seres pensantes que são; não penso só no fator econômico. Não é bem assim que funciona. Olhe lá!

– Peguei na sua ferida, não é?

Bohen se irritou. Não aceitava ter seu ideal distorcido, ou ofendido. Não queria deixar assim. Ele gritou:

– Eu estou pensando no que o seu partido nunca pensou! No dinheiro! É isso que um governo precisa pra se manter em pé! Dinheiro! O bem estar do povo é relativo! O que importa é o país estar funcionando! Se todo mundo recebe, manda e decide por igual; se todo mundo é dona das fábricas, das empresas, dos comércios; se todo mundo é o governo, quem vai pagar imposto e comprar produtos pra manter o país em pé? É algo destinado ao fracasso, o sistema que você me propõe. Não queria voltar à miséria, como na nossa infância. Você lembra como a fome dói, Tarlí?

Do corredor, saiu Forlí, com seus olhinhos inchados de sono, um pouco assustado com os gritos de Bohen. O garotinho disse num tom bem fraco:

– Papai?

– Está vendo – disse Tarlí – acordou o menino. Precisava gritar?

– Nossa; não acredito – disse Bohen, olhando para Forlí, espantado – Como ele está grande! Vem cá, menino, me dá um abraço!

Forlí caminhou timidamente até Bohen, que o pegou no colo e o apertou em seus braços. Bohen estava emocionado. Não via o menino há três anos.

– Lembra do tio Bohen? – disse Tarlí.

– Sim.

– Ótimo – disse Bohen – senta aqui – colocou o menino em uma das cadeiras.

– Cansou de discutir? – perguntou Tarlí, sorrindo para o amigo.

– Tarlí, eu não queria brigar, sério. Só puxei esse assunto porque queria conversar com você. Depois que os astrais chegaram, é difícil termos um diálogo normal, como tínhamos antigamente. E você precisa de mais disso. Viver como se deve. Parar de se lamentar tanto. Se culpar não muda a nossa situação.

– Eu sei. Eu sei. É que eu ainda acho duro aceitar tudo isso.

– Tudo bem. Mas, pra encerrar a nossa discussão de qual ideologia está correta… – Bohen olhou para o menino – Forlí, quem você escolhe pra decidir seu futuro? Eu, o titio que pensa no seu dinheiro, ou o papai, que é todo romântico?

– Nenhum dos dois. Eu quero decidir sozinho.

Postado em by flucena - Pilares