Jornada Para O Sul – Capítulo 1

Capítulo 1

Stjerne Fra Gud 

Jornada

Hustjenere era uma terra escura, estranha, uma vastidão de florestas densas e úmidas, tão fechadas que mal se via a luz do sol; existiam inúmeros tipos de animais vivendo ali desde pássaros imensos e coloridos, até felinos de dois metros de comprimento da cabeça a ponta da cauda, ursos gigantescos, lobos, raposas, veados e alces. O povo Foløkse habitava todo aquele espaço.

Foløkse significa “Povo do Machado”, são um povo marcado pela ignorância e intolerância, além de seu fanatismo religioso. Eram também muito agressivos, viviam invadindo as terras dos povos Kalt e Deutos, seus vizinhos ao leste, não passando dos rios da região, pois eles acreditavam ser as cabeças de Snake.

Hustjenere ia das encostas do Blå Peak(montanha sagrada dos Foløkse, onde eles acreditam ser a morada de Gud) até pouco antes do fim do Rio Snake(na crença deles, é a cobra que tenta engolir o mundo). Nas margens deste rio existem várias vilas de pescadores, uma delas é Ved Havet.

Ved Havet é uma pequena vila de casinhas suspensas em bases de quatro colunas, com uma estrada passando em seu lado contrário ao Snake. Nela moravam cerca de trinta famílias de pescadores. Dentre elas, estava a família Harald. O chefe da família se chamava Ejnar Harald. Era alto, forte, grande e peludo, tinha o aspecto padrão de brutamontes de seu povo; tinha olhos escuros e sobrancelhas grossas, mas não enxergava do lado esquerdo, ali havia uma grande cicatriz que cruzava seu rosto da testa até abaixo da maçã do rosto, passando bem no meio do olho e da sobrancelha. Seus lábios eram ásperos e grandes, e os dentes muito amarelos; suas orelhas eram avantajadas e cartilagenosas; seu nariz era torto para o lado direito. Era dono de uma barba grande e grisalha, que vinha até seu peito, toda trançada. Seus cabelos eram longos e sem cor, e estavam sempre amarrados em forma de coque. Ejnar casou-se com Nielsine.

Nielsine era magra e muito bonita; seus olhos eram verde-claros e suas sobrancelhas loiras e delineadas; seus lábios eram vermelhos e carnudos; suas orelhas eram pequenas e rosadas; seu nariz era fino e pontudo. Seus cabelos eram longos, loiros, brilhantes e sedosos; sua pele era muito branca. Vinha de uma família de comerciantes da fronteira ao leste. Sua família, os Bergljot proviam o alimento para as invasões.  O casal, prestes a ter um filho, fugiu para o interior, onde poderiam ter paz.

No dia vinte e seis do mês de Diplomat, nasceu Ulrick Harald, Uma criança muito saudável. Tinha o nariz e os cabelos do pai, e os olhos, a boca e as orelhas da mãe. A criança crescia mais forte e mais inteligente que as outras da pequena vila. Aos sete anos já ajudava nas pescarias de sua família e andava sozinho nos arredores de Ved Havet.

Certo dia, o garoto foi brincar na margem do Rio Snake, um pouco afastado da vila, para que o vissem. Começou a desenhar no chão. Desenhou várias vezes a mesma forma, que parecia uma estrela. Um homem passava ali perto cavalgando e o viu. Desceu do cavalo e foi até o menino.

– O que faz sozinho aqui?

Ulrick virou-se e viu um senhor alto, mais alto que seu pai, magro e de postura firme; de cabelos e cavanhaque grisalhos; olhos castanhos e sobrancelhas arqueadas; nariz quase que escondido em seu bigode; boca fina e pequena; orelhas médias; pele parda e bronzeada; vestia um macacão de couro típico de ricos viajantes.

– Vim para brincar. Estou desenhando na areia.

– E o que desenhas?

– É a Estrela De Gud.

– E o que ela significa?

– Você não sabe?

– Não.

– É o ciclo do universo. Todos nós viajamos nele. Desde bem antes do tempo ser tempo. Antes que nosso povo se tornasse povo. Até mesmo antes de Gud existir.

– E como é esse tal ciclo?

– No começo de tudo, não havia nada. Era apenas o vazio. Mas, um dia, no centro de tudo, algo surgiu, e explodiu, se espalhando para todos os lados, dando origem a tudo. Esta era a primeira ponta da estrela, e também a primeira fase do grande ciclo: o Bem.

– Prossiga.

– O bem tem cinco fases, cinco sentimentos que o fazem ser o que é: a esperança, o amor, a compaixão, a confiança e o suspiro. Logo após o bem, veio a Vida, e junto dela veio Gud. Ele é O Primeiro Homem.

– A vida é a segunda ponta. As fases dela são: desejo, necessidade, vontade, egoísmo e perversão. Então vem a terceira ponta da estrela: o Mal.

O mal começa com a ambição. Depois, vêm o poder, a destruição, o receio e a solidão. Aí, chega a quarta ponta, onde começa a parte mais escura do ciclo: a Morte. Nela, acontecem a desolação, a tristeza, a depressão, a aceitação e a reflexão. Então vem o bem outra vez, e tudo o que vive dá voltas nesse ciclo desde sempre.

– Pero, e Gud? Ele também está no ciclo? Como ele pode ser especial então?

– Gud foi a primeira vida. Quando ele nasceu, só haviam plantas e mais plantas, desde bem antes do Blå Peak até onde nem mesmo Snake pode alcançar. Ele deu várias e várias voltas no ciclo, até perceber que tudo era energia, e que podia fazer os ciclos dele demorarem mais com elas. O Bem é a energia que transforma e constroe, a Vida é a Energia que age e movimenta a carne, o Mal é a energia que consome e depreda o mundo, e a morte é a energia que paralisa enquanto se limpa.

– E o que tem isso? Como Gud virou o Grande Gud? Só aprendendo as energias?

– Não, burro! Ele viajou tantos ciclos, que aprendeu a controlá-las! Nas florestas, ele fez crescer frutos, grãos e raízes para que pudéssemos comer! Ele fez os animais para caçarmos e pescarmos! Fez também a chuva e os lagos para nos dar de beber! A luz para que pudéssemos enxergar! E Fez nascerem os valorosos, para nos ensinar a usar sua criação! Ele expulsou os primeiros seres, que vieram logo depois dele mas ficaram presos no egoísmo e na perversão! Mandou eles para bem longe das terras Foløkse!

– Tranquilo, niño! Tranquilo!

– Do que me chamou? – Ulrick se levantou segurando um galho pesado na mão -.

– Chamei-te de niño, ora! Calma-te!

– Chama de novo se tiver coragem –Ulrick segurou o galho como se portasse um porrete-.

– Quer dizer garoto! Niño é a mesma coisa que garoto!

– Ah, você é de fora. Desculpa, moço, nem tinha percebido – Ulrick sentou-se e voltou a desenhar -.

– E eu pareço um Foløkse para você?

– Não sei. Como parece um Foløkse?

– Como as pessoas da tua vila, ora!

– E como elas são? – disse Ulrick, virando-se para o homem, mas continuando sentado -.

– Muito brancas, bem fortes, e peludas, sim, peludas!

– Você tem bastante pêlo para um cavanhaque só…. Mas é fraquinho e queimadinho de sol. De onde você é, seu moço?

– De Mariana.

– Mariana? Onde é esse lugar? É do lado de lá do Snake? Papai disse que no oeste só tem mato.

– Não, Mariana fica do outro lado do Blå Peak.

– Meu povo não gosta do teu.

– Não é problema, eu também não gosto deles.

– Como você pode não gostar de quem é seu igual?

– Um dia você entenderá, niño. Mas, por que seu povo não vai com nossa cara?

– Vocês aceitaram um dos primeiros, que Gud expulsou daqui. Além disso, ficam desafiando a casa dele sem serem sequer convidados a ir lá.

– Como assim? A Deusa Mariana, vocês a chamam de uma das primeiras, mas essa tal Casa de Gud, nunca vi antes.

– O Blå Peak! Ele mora lá! Você não sabe nada, hein? Nunca ouviu as tias do templo?

– Ora! – o homem deu risadas – Não sou daqui, por isso nunca fui ao templo. E você, garoto, é bem interessante. Nunca vi um Foløkse tão à vontade perto do Snake.

– Mas eu não tenho medo dele. Papai e mamãe que têm.

– Todo Foløkse o teme.

– Mas eu sou corajoso! E ele nunca me fez mal algum! Eu já vi ele levar a carroça do vizinho uma vez, no último Fisker, mas ele nunca mexeu comigo, nem com papai, nem com mamãe! Na verdade, eu já caí nele, e ele me jogou na areia de volta.

– Niño, isso é perigoso! Não sabes nadar?

– O que?

– Nadar! Como um peixe!

– Eu sei o que é nadar, seu tonto. Mas se alguém me pega fazendo coisas de peixe, e ainda por cima dentro do Snake, vão dizer que eu estou me curvando aos primeiros, e eu vou tomar a maior surra de todas.

– É bem verdade isso. Bom, preciso ir, garoto. Tenho negócios para cuidar.

– Espere! Deixe-me pegar um peixe pro moço levar na viagem.

– Oh, não, não posso demorar!

– Vai ser rápido, eu inventei um jeito novo de pegar peixes!

O homem ficou intrigado. Poderia um Foløkse estar inventando agora? Alguém de um povo que não se esforça para ir pra frente, mas que se esforça para ficar estagnado no mesmo lugar. Isso não era e por muito tempo não será algo que se vê todo dia.

– Está bem, eu espero, mostre-me o quê inventou.

O garoto foi até a àrvore mais próxima, e num pulo se pendurou em um de seus galhos. Se balançou até que a tora caísse. Ele tirou as folhas das pontas, quebrou as partes mais frágeis, e com uma pedra lisa foi afiando cada uma delas.

Quando terminou, o galho tinha seis pontas bem afiadas, todas do mesmo lado. O garoto foi até a beira do rio, então segurou o galho no meio e levantou sua mão até acima da cabeça, mantendo o braço dobrado atrás do seu pescoço. Mirou sua lança improvisada para a àgua, esperou um pouco e deu um golpe reto em sua superfície, puxando de volta imediatamente, trazendo um salmão espetado na ponta do instrumento.

– Bravo! Bravo! – disse o homem -.

– Por que está bravo?

– Quis dizer parabéns! Muito Bom!

– É legal, não é?

– É sim! Fez sozinho?

– Foi eu que inventei sem a ajuda de ninguém!

– Muito bom, niño! Vamos, está escurecendo, tens que ir para casa! Eu te levo em meu cavalo.

O homem embrulhou o peixe em um couro salgado e colocou Ulrick na garupa. Eles cavalgaram até a vila, que ficava seiscentos metros ao norte. Os moradores olhavam torto para o mariano, mas não o incomodavam. Passaram-se algumas casinhas, e lá estava Nielsine sentada nas escadinhas de uma delas.

Ela puxou o garoto de cima do cavalo, olhou para o homem mariano e gritou:

– Quem é você? O que quer aqui?

– Desculpe senhora! Desculpe! Eu achei o niño sozinho um pouco afastado daqui, e decidi trazê-lo em segurança.

– Do que você o chamou!?

– De garoto, senhora!

– Ulrick! O que fazia longe de casa? Um lobo podia ter te pegado!

– Desculpe, mamãe… – disse Ulrick, baixando sua cabeça -.

Nielsine pegou na mão de Ulrick e voltou para sua casa. O mariano desceu do cavalo e foi atrás dos dois, mas pouco antes de alcançá-los, levou uma forte chibatada nas costas e caiu no chão. Ejnar o acertou com sua vara de pesca, puxou uma faca e segurou pelos cabelos do pobre homem.

– Quem é este estrangeiro, Nielsine?

– Não sei – respondeu nielsine em um tom de desprezo -. Disse que Ulrick estava longe de casa, então o trouxe aqui.

– É verdade, meu filho?

– Sim, papai – disse Ulrick – Não machuque o moço, ele é bom.

– Ah, garoto, é só um estrangeiro! Olhe em volta, ninguém se importa com o que faço dele, ele deveria estar com seu povo, não em nossas terras.

– Por favor, papai. Ele é um bom moço.

– Meu filho, tão bondoso quanto o Valoroso de seu nascimento! Diga, estrangeiro, de que terras você veio?

– Que basura! No! No! Tranquilo! Tranquilo! – Começou a resmungar o mariano, enquanto segurava os dois braços de Ejnar -.

– Como é? Espera, você é mariano? Ah, você vai pra faca, sem dúvidas!

– Espera! Espera, hombre! Espera! Eu vim pra falar do teu filho! Quero empregar ele, vou pagar muito cobre!

– Não precisamos de cobre aqui.

– Mentira! Mentira! Mentira! Me escute, sou comerciante e quero que o teu niño comande a minha guarda, pois ele é inteligente.

– Do que você chamou meu filho? Não importa, o garoto é muito novo para comandar. E como assim comandar, nem mesmo eu sei fazer isto.

– Não quero levá-lo hoje, e te garanto que eu vou ensiná-lo a ser um comandante, por favor.

– Ora, estrangeiro! Fala como se fosse fácil mandar uma criança embora com uma caravana, não importando o motivo!

– Olha, eu te dou tempo para pensar, te dou sete anos. Quando ele tiver catorze, eu volto aqui, e você me dá a resposta.Eu vou ensinar Ulrick por quatro anos, então ele me serve por três, e com vinte e um anos, voltará para casa com quinhentas peças de cobre.

– Quanto? Não, espere, mudei-me para cá porque não queria Ulrick perto de batalhas, pois sofri muito nelas.

– E por que está ensinando o niño a usar uma espada?

-Como você sabe?

– Vamos, hombre! Batalhar está no sangue dele assim como no teu!

– Mas eu não posso perder o meu filho.

– Sete anos para pensar nisso, hombre! Deixe-me ir, não vou voltar tão cedo.

– Qual é o seu nome, estrangeiro?

– Osírio! Osírio Uchoa.

– Pois bem, Osírio. Vou te soltar.

– Obrigado!

– Mas você tem que sumir daqui. E só volte daqui a sete anos. Eu vou ter uma resposta para a sua proposta.

– Sí, sí, bueno. Sete anos, sim, sete anos.

Tão logo Ejnar afroxou seus braços, Osírio já estava em seu cavalo, pronto para fugir da vila. Não olhou para o lado sequer um segundo.

Ulrick foi até seu pai, com a cabeça baixa, olhou em seus olhos, e disse:

– Papai, nunca nem vi uma briga de verdade, que é que eu vou fazer comandando em uma batalha?

– Ainda não ensinei tudo o que deves aprender, menino. Tem coisas nesse mundo que nem mesmo o bom Gud pode interferir. São os homens que fazem as guerras, por isso são os homens que tem de lutá-las e vencê-las. Vamos para dentro, peguei um belo bagre para a ceia.

ImagemDelatorre lhe deseja uma boa leitura.

Postado em by flucena - Pilares